Para quem apenas passava ou assistia, era difícil definir o que eles estavam fazendo ou o que estava em jogo ali. Dava pra ver que ele estava pronto para entregar mais uma carta.

As cartas são como nós. Tomam formas e cores variadas. Elas vão e vêm. Algumas são mais demoradas, outras quase instantâneas. Umas são vistas por todos, já outras ficam escondidas. Há aquelas deixadas com a leveza de um presente, doutras nem se vê o remetente.

O burburinho  das pessoas ao redor era apenas pano de fundo para o que acontecia naquela mesa. Mesmo assim, as cartas também falavam das músicas, das danças e destas outras pessoas. Passado, presente e futuro estavam ali em cada carta, nos planos e histórias contadas. Tudo isso ali naquela carta. Agora…

Ele olha a carta e sabe que nela está toda expressão do que ele deve fazer. Ele tem consigo as cartas que recebeu e algumas que ele mesmo mandou antes. Com ele também estão as cartas que não serão de ninguém e outras que ele ainda vai mandar.

Entrega a carta já na mão da destinatária. Não sabe se tem mais carinho no jeito que seus olhares se tocam, nas mãos enlaçadas sob a carta ou no que está sendo dito através dela.

As cartas são como nós. Ligam linhas de tempo. Histórias de vida se conectam. O mundo de palavras, desejos e sentimentos de uma pessoa pronto para ser aberto e recebido no mundo da outra. Deve ser por isso que a conversa envolvida por essa cartada parece durar uma eternidade. Mundos estão se penetrando.

Ela ruboriza e sorri como há muito tempo não acontecia. Quando percebe o que significa a carta que ele mandou, vê que a configuração de seu jogo mudou radicalmente. Com aquela cartada, ele a está convidando para entrar em algo mágico, raro. Surpresa, ela joga a próxima carta.

Alguns jogam xadrez com a morte. Ele prefere a vida. Não sabe que cartas virão naquele baralho. Nem todas as regras ele conhece, mas isso nem importa tanto pois ele mais brinca que joga. Não é o acaso ou a vida que define como será o jogo. Eu que decido o que fazer com as cartas que recebo.

Nós somos como as cartas.
Tem uma aí na sua caixa de correio eletrônico. Você abriu? Abriu-se?
O baralho está esperando sua próxima jogada. Aceita o desafio da vida?

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