A série de artigos publicados pela Wired Magazine no último dia 23 está sendo ótima para contextualizar minhas reflexões sobre o que quero com esse blog.
Há tanto sendo dito na internet. Com o boom da inclusão digital e com a cada vez mais fácil possibilidade de produzir páginas e sites, temos uma virtual infinidade de novas informações se tornando disponíveis e acessíveis a cada momento. Informações vindas de e apontando para todas direções. Desde proclamações da mais nova salvação da humanidade até a pior expressão do que os seres humanos podem fazer, com toda beleza e mediocridade no meio deste espectro.
Isso não é diferente do que geralmente se considera o mundo não-virtual. Ao andar pelas ruas de diferentes cidades grandes vejo tanta gente ilhada, sem olhar umas pras outras. É tanto barulho, tanta gente falando ao mesmo tempo. Algumas literalmente pisando nas outras. E também vejo pessoas ajudando outras a se levantar, pessoas amando.
Ter acesso a esta quantidade de informação ou saber que existem pessoas que pensam e fazem tal multiplicidade de coisas também gera angústia e desamparo. Não conseguimos lidar com todo o volume de dados disponíveis. Filtramos essas informações além de também serem filtradas de outras formas que não percebemos. Assim, podemos ver o mundo como algo fantástico e belo. E também podemos vê-lo como algo terrivelmente auto-destrutivo.
Penso que o acesso a esta infinidade de informações sobre a humanidade que se descortina ante nossos olhos e telas seja algo parecido com o que acontece individualmente. Muitas vezes percebemos em nós mesmos impulsos, desejos, padrões de pensamentos e hábitos que não reconhecemos como nossos. Algumas pessoas não conseguem lidar com a quantidade e qualidade dessas novas informações. Muitas dizem preferir voltar a um estado de ignorância sobre si mesmas, como se quisessem voltar a um Jardim do Éden.
Os artigos da Wired que citei apontam para esta característica do mundo contemporâneo: nunca foi produzida e analisada tanta informação a cada instante. É a Era Petabyte. Estamos cada vez mais nos acostumando com os termos da informática. Um byte é a unidade de quantidade de dados geralmente utilizada na computação. Por exemplo, simplificando, cada letra em um texto geralmente ‘ocupa’ um byte. É comum, atualmente, pensarmos em termos de gigabytes, ou cerca de 1 milhão de bytes, quando falamos de coleções de fotos, músicas e vídeos. Um petabyte pode ser imaginado como sendo 1 gigabyte de gigabyte, ou cerca de 1 milhão de milhão de bytes.
Um petabyte é a quantidade de dados processados pelos servidores da Google a cada 72 minutos. É cerca do dobro de dados de todos os vídeos hoje armazenados no Youtube sendo analisados em pouco mais de uma hora.
É ou não é muita gente falando na internet?
Sim e não. A grande parte destes dados são colhidos por sensores e coletores automáticos de dados. Bibliotecas estão digitalizando seus acervos antigos e disponibilizando online. Sensores de temperatura, de pressão, de qualidade do ar, de fluxo do trânsito e de outras miríades de variáveis estão coletando dados em tempo real e sendo armazenados. Nunca antes medimos tanto as coisas. Nunca antes houve tantos dados para serem analisados e processados. E nunca antes houve tanta capacidade computacional de fazer tal tarefa. Uma evidência de que isso é feito com eficiência é a disponibilidade de encontrarmos a informação que buscamos ao usar servidores como o Google.
O mote da série de artigos da Wired é que “mais não é apenas mais. Mais é diferente”. Ou seja, não é apenas uma questão de quantidade de dados. Essa enorme quantidade de dados está produzindo mudanças qualitativas na maneira como encaramos os dados e a própria forma de fazer ciência e ‘entender’ o mundo.
O artigo ‘The End of Theory: The Data Deluge Makes the Scientific Method Obsolete‘ (tradução livre: ‘O Fim da Teoria: O Dilúvio de Dados Torna o Método Científico Obsoleto‘ – link) aponta para insights que considero muito interessantes. A ciência avançou muito nos últimos cinco séculos com o método científico que funciona basicamente em torno de testes de hipóteses, montadas no arcabouço de determinado modelo teórico. As hipóteses são confirmadas ou falseadas e também seu modelo teórico. Considera-se que os modelos teóricos são necessários para estabelecer e entender correlações entre conjuntos de dados (e que o cientísta não confunda correlação com causalidade).
O que se defende é que, com a quantidade de dados disponíveis e a capacidade de analisa-la, não precisamos mais de modelos para ‘entender’ os dados. Basta estabelecer as correlações entre as muitas variáveis e encontrar padrões subjacentes.
Esta maneira de se pensar ciência tem muito a ver com a forma que os sistemas da Google determinam quais páginas são melhores respostas às nossas pesquisas. Eles não fazem uma análise semântica ou causal de nossa consulta e muito menos de cada novo petabyte de dados a cada hora na internet. Não montam um esquema, mapa ou modelo baseado no conteúdo dos dados. E mesmo assim, o sucesso do Google se baseia principalmente na qualidade de suas respostas às buscas na internet. Além disso, ganham dinheiro com a tecnologia de fornecer anúncios publicitários correlacionados com as pesquisas feitas pelos usuários. Os sistemas computacionais do site fazem isso com base em análises estatísticas da quantidade de links apontando para cada página da internet e na quantidade de visitas que ela recebe.
This is a world where massive amounts of data and applied mathematics replace every other tool that might be brought to bear. Out with every theory of human behavior, from linguistics to sociology. Forget taxonomy, ontology, and psychology. Who knows why people do what they do? The point is they do it, and we can track and measure it with unprecedented fidelity. With enough data, the numbers speak for themselves. (op cit.)
Estamos num mundo onde enormes quantidades de dados e matemática aplicada substituem todas outras ferramentas. Livre-se de cada teoria sobre comportamento humano, da lingüística à sociologia. Esqueça taxonomia, ontologia, e psicologia. Quem sabe por que as pessoas fazem o que fazem? O que importa é que elas fazem, e nós podemos acompanhar e medir isso com fidelidade sem precedentes. Com dados suficientes, os números falam por si. (trad. livre)
Num mundo onde tanta informação chega até nós, como sobreviver?
Diego não conhecia o mar.
O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.
Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
- “Me ajuda a olhar”!
(Livro dos Abraços – Eduardo Galeano)
Comecei a usar internet em 1995. Naquela época de internet comercial engatinhando no Brasil ainda acessávamos sites apenas por email (link). Sonhávamos conseguir ‘surfar‘ na internet! Depois, o termo usado começou a ser ‘navegar‘. Hoje, não mais surfamos, nem navegamos. Estamos mergulhados na internet. A internet mudou em muito a forma como absorvemos e produzimos informações. Já não lemos nem escrevemos da mesma forma. Acessamos, produzimos e replicamos textos de maneiras que não se imaginava décadas atrás.
Descobrimos algo novo sobre nós mesmos a cada momento. Não alcançamos limites, se houverem, de novas descobertas sobre os corpos celestes. Parece não haver limites no que há para ser descoberto no infinitamente pequeno, no universo sub-atômico. E sempre haverá o que descobrir sobre nossas neuroses (se é que este é o melhor nome), nossas culpas, dores, desejos e prazeres. Se não sabemos bem sobre nós mesmos, que dirá sobre as pessoas ao nosso redor?
O que é apresentado no artigo que citei acima, sobre fazer ciência prescindindo de modelos teóricos, pode ser útil em como lidar com todas essas novas informações.
Criamos modelos de como o mundo funciona, de como nós mesmos somos e de como esperamos que as pessoas se comportem. Quando algo novo não ‘encaixa’ no modelo ou esquema que criamos, assimilamos aquela novidade ao esquema existente. Posteriormente, acomodamos os esquemas às idiossincrasias da novidade, numa busca constante de adaptação e equilíbrio. Esse é um pequeno resumo de Uma teoria de aprendizagem. Existem outras, mas a base é principalmente esse desenvolvimento de Piaget.
Mapas
Pra grande maioria de nós parece inevitável consultar um mapa para visitar lugares que não conhecemos. Em muitos momentos, até para ir a lugares que achamos que conhecemos, abrimos mapas para não nos perdermos.
O que quero com este blog é compartilhar notas de um observador perdido. Eu até gosto de mapas e acho que sei ler bem um mapa. Só que me excita muito mais a efervescência de uma praça que nem aparece nos mapas.
Cada vez mais, abro mão de seguir mapas. São obras de ficção tanto quanto um mapa da Terra Média, ou um oásis no meio do deserto que se revela miragem cercada de areia. Entre a ficção dos mapas, teorias, identidades e conceitos que criamos sobre a vida e a ficção dos sonhos que vivemos, prefiro me perder nestes últimos.
Perdido, olho mais pros lados. Fico mais em silêncio. Pergunto. Encontro pessoas que não parecem estar perdidas. Mais do que me apontar direções, elas abrem os braços ao apontar. Muitas destas pessoas se abrem e abrem sorrisos ao verem minha ignorância! E como a paisagem se ilumina quando um perdido encontra um sorriso!
Mais divertido ainda é quando encontro outra pessoa perdida. Ficar perdidos de mãos dadas é uma delícia. Não querer chegar a lugar nenhum e estar mesmo em todos os lugares onde passamos. Curtir cada lugar e momento, cada espaço entre as pessoas: isso também é estar perdido.
Nos territórios de minha subjetividade eu me encontro ainda mais: Perdido e sem documento. Perdido e sem mapas. Então, não espere regularidades, certezas. Mas, você vai sim me encontrar. A cada assunto, quando eu finalmente conseguir falar, tremendo, gaguejando, vou pedir: “Me ajuda a olhar!”.
Que este seja uma forma de minha presença na internet. Estar mesmo presente. Ser presente.
É o que ofereço.
Aqui você vai encontrar textos curtos, chamadas para referências de outros sites, páginas e notícias. Vai se surpreender também com textos grandes, analíticos, argumentativos. Cada tentativa de poetizar será uma surpresa pra todos nós. Minhas prosas e brincadeiras literárias também vão visitar esse blog. Enfim, aqui você vai encontrar Encontros. Nós nesta rede de idéias e sentimentos – de pessoas.
Tenho muito interesse em dizer e receber aqui sobre: como sermos melhores pessoas; espiritualidade; filosofia; política; artes; psicologia; saúde; sexualidade; relacionamentos; educação e cultura popular, múltiplas formas de ser homens e mulheres. Estou bem perdido nestes assuntos todos, então talvez por isso minhas idéias sejam bem diferentes sobre cada um desses tópicos.
E então, quer me apontar direções pra onde eu posso ir?
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26 26UTC Junho 26UTC 2008 at 5:50 PM
Cara, MUITO bom esse texto. O lance da Wired é isso mesmo.
Porra, muito bom, valeu.
26 26UTC Junho 26UTC 2008 at 7:58 PM
Uau, que fôlego! Admiro de montão sua organização. Ótima presença!
aquele abraço!
26 26UTC Junho 26UTC 2008 at 11:02 PM
Pôxa… estava inspirado, camarada.
Destaco principalmente: “Nós nesta rede de idéias e sentimentos – de pessoas”.
Já há muito tempo, não considero a internet como um mundo apenas virtual, mas sim um espaço não-físico feito pelas pessoas, com as pessoas e para as pessoas…
Falow
1 01UTC Julho 01UTC 2008 at 5:57 PM
Fantástico!!! Lembrei da minha primeira aula de Técnicas da Comunicação, quando a professora (uma loira barangona, que esqueci o nome agora) disse sobre o ‘boom’ de informações que recebemos e assimilamos a cada segundo… ouvindo, vendo, sentindo… e ainda, em cada sentido, subliminares que nos remetem a novas informações. (Acho que ela se chamava Vanussa…..rs). Bom, na verdade, comecei a pensar o que seria Relações Públicas, porque sempre quis fazer publicidade, e como passei de cara na Newton, e matriculei (porque sabia que não passaria na federal e tinha medo de não passar na Católica, mas passei e bem…rs), tentei entender o que era o tal curso de RP, e toda aula era repleta de informações valiosas. Qdo ela falou sobre isso, passei a viajar no que via, ouvia, sentia, e fui percebendo que tudo o que eu aprendia naquele curso – na época eu não trabalhava, era patricinha, tinha que associar a algo pra tentar compreender o que diziam… – eu levava pra minha vida. E fiz da minha vida a minha empresa. E comecei a pensar nas informações que trazia pra mim, sobre como vender o que eu tinha de melhor, como avaliar pontos fortes e fracos, analisar a concorrência… Enfim… trata-se de como PERCEBER tudo o que nos envolve, seja virtual ou não. Pessoas. Perceber pessoas. Hábitos. Neuras.
A cada dia percebo que me descubro. Descubro coisas cabulosas. Descubro outras beeemmm interessantes. Mas as que mais me fascinam são aquelas que quando vi, já vivi, e me fizeram bem. Passional que sou, prefiro sentir. Prefiro viver a não viver por ter pensado e refletido demais. Por medo, ou excesso de cautela. As que vivi e me fizeram mal… ainda tô aprendendo o que fazer com elas, mas adianto que não guardo isso, não abraço a infelicidade como uma informação mal processada ou incompreendida.
Ai, comecei a viajar…rs. É que lembrei mesmo da tal aula, e a melhor coisa que fiz foi aplicar o que aprendi primeiro na minha vida, depois onde eu trabalho, porque consigo ver melhor como sente o cliente irritado, o funcionário desmotivado, o chefe tirano… minhas batidas de frente com o chefe, colocar-me no lugar dele, e tentar não desejar tantas coisas nada boas pra ele…rs…. Enfim, trabalhar as informações PERCEBENDO AQUELES QUE NOS CERCAM COMO PARTE DE UMA CADEIA, respeitando seus sentimentos e suas falhas. Bom… AO MENOS A GENTE TENTA…rs…
2 02UTC Julho 02UTC 2008 at 9:20 AM
Oi, Daft! Legal o teu ponto de vista. Te convido a entrar na campanha Contra o Projeto de Lei do Senador Eduardo Azeredo que pretende criminalizar práticas de remix e do P2P na Internte. Pega o banner lá no meu blog. Abraço,
16 16UTC Dezembro 16UTC 2008 at 10:04 AM
Nossa Dani, que texto mais denso!
Muito, muito, muito bom…
Me interessei particularmente pelas partes:
1- “Livre-se de cada teoria sobre comportamento humano, da lingüística à sociologia. Esqueça taxonomia, ontologia, e psicologia. Quem sabe por que as pessoas fazem o que fazem?”
ehehehe…sério, no fim acho essa coisa de “teoria” sobre os seres humanos só uma questão prática, não tão enriquecedora se aplicarmos a nossa “forma de viver a vida”, somos muito complexos para vermos e sermos vistos sob um só ângulo. É claro que na hora de atender, “balaio de gato” tb não funciona bem né? Enfim…tem a ver com minha “pausa” na clínica tb.
2- “Mais divertido ainda é quando encontro outra pessoa perdida. Ficar perdidos de mãos dadas é uma delícia. Não querer chegar a lugar nenhum e estar mesmo em todos os lugares onde passamos. Curtir cada lugar e momento, cada espaço entre as pessoas: isso também é estar perdido.”
–> lembrei de quantas vezes nos encontramos perdidos nas multidões…rsrs. Que o próximo encontro perdido, nos encontremos e papiemos mais sobre tanta coisa!!!