(Música de fundo: Enjoy the Silence, na versão de Tori Amos)

A larva do bicho da seda passa trinta dias se alimentando de todas as folhas que consegue. Então, novamente se abriga num casulo por duas semanas para se transformar no inseto adulto. De cada casulo destes são extraídos cerca de mil metros do tênue fio de seda.

Para extrair artesanalmente o fio do casulo são necesários movimentos suaves e firmes, sem mudanças bruscas de sentido. Se for rápido demais, o fio de seda se rompe. Se for lento demais, ele gruda e embaraça.

No Tai Chi Chuan da escola Chen existe uma técnica de treinamento inspirada nesta atividade que era cotidiana na China da época dos mestres. Nos vários exercícios de “enrolar o fio de seda” (info em português – em inglês), os movimentos são executados com o mesmo cuidado e precisão necessários para que o componês não rebente o fio de seda do casulo.

Um bom contador de histórias sabe intuitivamente o quanto pode puxar do fio que sai do casulo que está na imaginação de quem o escuta. Um bom escritor faz movimentos contínuos para extrair de seu emaranhado de idéias aquele finíssimo fio de seda formado pelo encadear de palavras.

Alessandro Baricco é exímio artesão de fios de palavras. Em Seda (2007 [1996]), ele conduz a história com seu estilo conciso, direto e certeiro. Produz um tecido leve e nobre. Poucas palavras, frases curtas. É incisivo nas sensações que descreve e provoca em quem acompanha o fio de seda.

Há um filme lançado em 2007 que é baseado neste livro e recebeu o título de ‘Paixão Proibida no Brasil. Do diretor canadense François Girard (o mesmo do espetáculo do Cirque du Soleil que estréia hoje no Japão), o filme tem boas qualidades visuais, mas não é ousado ou instigante como o livro.

Conta a história de Hervé Joncour, que no final do séc. XIX, da França parte para outros lugares do mundo a fim de comprar ovos de bicho da seda. Especialmente, foca os desdobramentos das viagens ao último lugar onde os ovos não estavam infectados por uma epidemia. O fim do mundo. Lá, descobre que este é invisível, se perde inúmeras vezes e ama o que encontra.

Ele tinha trinta e dois anos.
Partiu em 6 de outubro. Sozinho

Ele gostava de observar a própria vida como ao ver a superfície de água de um lago ondulando-se em todas direções. Mesmo sendo apenas um vento, no espelho de água pareciam ser mil os reflexos.

Seda é um livro que trata a vida como o leve tecido, balançando ao vento. Tingido com amor: Distante. Perto. Inefável. Incompreensível. Em silêncio ou com uma voz belíssima. Principalmente, o infindável amor:

Não nos veremos mais, senhor.
O que era para nós, nós o fizemos, e o senhor sabe. Acredite em mim: nós o fizemos para sempre. Mantenha-se protegido contra mim. E não hesite um instante, se for útil para a sua felicidade, em esquecer esta mulher que agora lhe diz, sem saudade, adeus.

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