Parabéns pelo seu aniversário.
Há 20 anos, foi promulgada nossa atual constituição federal. Eu me lembro do dia de aula no qual as aulas foram interrompidas e víamos pela TV o momento em que a Assembléia Constituinte era concluída com o Hino Nacional e um exemplar da carta-magna sendo empunhado como a materialização da conquista de anos de luta e sangue.
Eu tinha 12 anos de idade. Estava a 4 dias de meu aniversário. Naquela época, meu aniversário não significava coisa muito diferente que apenas a mudança do número de minha idade. Eu também não percebia a importância dos direitos sociais e políticos que aquele documento significa para nossa sociedade. Isso só foi acontecer com muitos anos e debates depois.
Atualmente, eu comemoro meu aniversário com todo o significado que cada etapa de minha vida possui. O ritual da passagem do tempo como um marcador que nos lembra de nossa finitude ao mesmo tempo em que reafirma o quanto somos maiores que nossa simples existência ao sermos lembrados no cotidiano de nossos amigos.
E, a cada ano, festejar nossos 364 desaniversários junto de desconhecidos e os entes queridos é exercício primordial para valorizar nossas escolhas e, paradoxalmente, acordar para quão efêmero é o piscar de nossos olhos na vastidão do espaço e na imensidão do espaço.
Este paradoxo – quão pequenos somos e, ao mesmo tempo, o quanto vivemos na pele os resultados de nossas escolhas – dá a perspectiva do significado que quero focar no aniversário comemorado hoje.
Quando conhecemos uma nova paixão, costumamos imaginar a vida com aquela pessoa. Desejos de toda ordem, sonhos sonhados juntos, o apartamento de cobertura, a filha que até já tem nome, tudo isso já parece estar sendo vivido. O amor é construir a realidade sonhada. É sonhar outros sonhos, pois a realidade sonhada é tão real quanto o sonho.
O sonho de um melhor lugar para se viver é visto por muita gente como sendo possível apenas em outro lugar. É como se a prosperidade e a justiça fossem possíveis apenas num outro país. Como se a ‘realização’ no amor fosse possível apenas com um novo amor.
Os direitos e processos democráticos substanciados na nossa atual constituição cidadã representam os sonhos de muitos movimentos sociais. Estes estavam apaixonados pela conquista sedutora da possibilidade de fazer deste país um local mais justo para se viver, ou, pelo menos, uma nação cujos rumos não fossem definidos pelos comandantes de uma corporação militar.
Assim como não foi possível, na letra de nossa lei maior, avançar em muitos aspectos necessários para que nós, brasileiros, não continuássemos submetidos a várias instâncias do poder econômico, não efetivamos muitos dos direitos lá inscritos. A disputa política é feita de interesses contraditórios. É como aquela paixão e amor que não conseguiu compartilhar mundos nos quais os sonhos, tão reais enquanto sonhados, não foram feitos realidades. Também temos muitos desejos e sentimentos contraditórios. Às vezes amamos muito alguém, mas também sentimos raiva ou não demonstramos nosso amor.
Hoje, na ocasião de seu aniversário, temos oportunidade de fazer algumas escolhas que são reedições daquele paradoxo das pequenas grandes escolhas. Quando amamos alguém, não é no ‘eu te amo’ ou ‘eu aceito’ que começa o amor. Muito menos é esse o final ou objetivo. O voto também não é o momento mais nobre da política. Mas, da mesma forma que dizer ‘eu aceito’ é ótimo quando gostamos de alguém, votar é manifestação da política em nós mesmos. Assumimos interesses contraditórios em escolhas de nosso compromisso: votar em branco, anular, não votar ou escolher alguém. Se quisermos uma sociedade mais consciente, que escolha bem seus representantes, devemos fazer isso hoje. É hoje que transformamos o presente. O futuro não existe.
Vote hoje com o mesmo cuidado de escolher como amar. Apaixone-se pelo lugar onde você vive, com todos os defeitos e qualidades. Cuide do que você ama, com pequenos e grandes gestos. Mesmo se você já votou, escolha um candidato ou candidata agora e participe das discussões e questões políticas de sua cidade para fazer amor além do momento de gozo.
Dê esse presente para quem fez ser possível comemorar o aniversário de hoje. Eu deixo de presente ‘uma flor, um sino, uma canção, um sonho’:
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5 05UTC Outubro 05UTC 2008 at 2:12 AM
oh mais que post lindo… como pode alguém aliar o ato de votar ao de aniversariar e ao de amar? só tu mesmo… =] e a admiração vai crescendo!
11 11UTC Outubro 11UTC 2008 at 10:44 AM
[...] Em tempo: Ontem o UOL publicou, enfim, um especial sobre os 20 anos da Constituição de 1988. Legal rever a imagem que me referi aqui. [...]
22 22UTC Novembro 22UTC 2008 at 1:25 PM
Nóoo mas esse texto aqui tb é lindo e muito profundo tb. Virei mais vezes, viu?
Seu link já ta lá no meu!
bJu